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Metacrônica
Postado por:
Rafael Lourenço do Carmo, em: 28.4.06.
Poucas pessoas conhecem angústia tão cruel quanto a sofrida pelo cronista. Pode parecer muito fácil falar de assuntos do cotidiano, com alguma reflexão, mas é uma das coisas mais torturantes que existem. Escrever, ao contrário do que muitos pensam, é treino, não dom. Como diz o velho clichê, 90% transpiração e 10% inspiração.
Entre escolher ou inventar um acontecimento cotidiano, até lapidar aquilo e transformar numa reflexão recheada de ironia e entrelinhas, existe um enorme trabalho mental, que queima muito mais fosfato do que muitas operações algébricas bizarras.
Mas a principal dificuldade do cronista é ter sobre o que falar. É amedrontador para alguém que escreve regularmente pensar que seus temas podem se esgotar, e que não haverá sobre o que falar daqui a um, dois ou três anos. É inevitável. Todo cronista, e digo sem medo de generalizar, sofre da eterna angústia pelo dia de amanhã. Não é como um jornalista, que senta e escreve o que aconteceu. O cronista tem que sentar, pensar, pensar, pensar mais, refletir, tirar conclusões, usar de todo seu sarcasmo, abusar de sua técnica com a linguagem, para depois, simplesmente, recomeçar a ser torturado, pensando sobre o que vai escrever na semana ou no mês que vem.
A sorte é que existe um assunto inesgotável e facílimo de ser tratado: a própria linguagem. Assim se formam as metacrônicas, onde o cronista fala da própria crônica e adia pra semana ou mês que vem o trabalho de ter que pensar em um novo assunto.
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